quinta-feira, 3 de abril de 2014

O Violinista que fazia Chover...

Era início da noite quando as buzinas do farol me traziam para a realidade novamente. Segundos antes, eu estava imerso em pensamentos que remetiam aos rostos conhecidos da minha infância. Todos alegres, sentados à mesa e cheios de vida ainda que em preto, branco e sangue.

A única cor que eu conseguia distinguir das demais era o vermelho intenso dos lábios da minha mãe ou quando minha irmã mais nova colocava seu vestido predileto rendado. Esses mesmo rostos desaparecem da minha mente, à medida que os pensamentos se aproximam do dia em que tudo ficou vermelho...

Uma gota de chuva escorre pelo para-brisa do táxi que havia pegado e eu agradeço o chamado das buzinas. O carro arranca pegando a rua principal e minha mão esquerda começa a tremer diante da ansiedade, pois hoje era a noite da minha grande estreia como solista da filarmônica local. Dava algumas verdinhas para o motorista, eu sabia que eram verde, pois viviam falando essa gíria em filmes de assalto ao banco, mas que para mim não passavam de tons sortidos de cinza.

Eu batia a porta trazendo o case do meu violino na mão direita e agora meus olhos fitavam a chamada no letreiro do teatro, onde destacavam o meu nome. Um largo sorriso de satisfação brota em minha face pela confiança depositada.

Ainda não havia entendido porque eu via o mundo daquela forma, os médicos não me davam uma explicação plausível e só a música me trazia conforto, talvez fosse a única forma de ver o mundo, mas será que era assim mesmo?

Passei pelos seguranças que abriam a porta do teatro e pude espiar a quantidade de pessoas na casa, lotada. Percorro a antessala até os bastidores, ouvindo boa sorte aqui ou um incentivo de um companheiro de orquestra ali.

As cortinas vermelhas estavam fechadas, o barulho dos ouvintes ia cessando ao tempo que o anfitrião lá fora pedia silêncio e meu coração já se encontrava acelerado. Abri o case removendo o instrumento que reluzia em prata e onde detalhes art déco emoldurava seu corpo. Suspirei caminhando até uma cadeira, onde estava iluminada solitariamente e lá se encontrava as partituras da apresentação de hoje.

Sento-me acomodando o violino adequadamente sobre o braço esquerdo, pego o arco e o coloco delicadamente sobre as cordas, reparo que as folhas estão trocadas e as movo. O vermelho sangue das cortinas já não me incomoda mais e as notas acabam por escapar entre meus dedos ágeis.*- (Prelúdio tocado: Bach - Prelude Suite nº1 with Violin.)

Meus olhos se fecham, vamos lá você ainda lembra as notas, continue tocando. Nesse momento a mágica acontecia lentamente, meus olhos se abriam e o mundo que antes era em tons de cinza e vermelho começava a ganhar vida.

Gradativamente as cores vinham em suas cores primárias, onde os cinza anteriores morriam. Posteriormente, as cores secundárias apareciam de mãos dadas as suas complementares, ao fim eu vislumbrava todos os espectros da luz e isso me deixava vivo.